Uma história sobre culpa, redenção e guerreiros brochas

Guerreiros brochas
Os filmes de Nolan são épicos sobre a esterilidade masculina. Daí a sobriedade de sua Odisseia: a ausência de corpo, de putaria e de humor; a morte dos deuses. Daí também a insignificância das mulheres em seus filmes, quase sempre reduzidas a objetos de motivação para heróis obscuros e brochas.
Ou menos que isso: Helena de Troia deixa de ser motivação para se tornar mera desculpa, um elemento a mais no tema da “culpa do heroi”.
Talvez o mais próximo que Nolan tenha chegado de criar uma personagem não masculina memorável tenha sido o Coringa Queer de O Cavaleiro das Trevas. Mas isso se deve muito mais à interpretação brilhante de Heath Ledger, que desde Brokeback Mountain havia compreendido como habitar personagens que escapam à masculinidade normativa. Naquele universo de homens estéreis, o Coringa é a única força verdadeiramente fecunda: o Caos, o Yin, a Sacerdotisa, a Lua.
Para ser justo, nos filmes de Nolan as personagens – masculinas e femininas – costumam ser a dimensão menos interessante da narrativa. Nolan é, antes de tudo, um formalista. A arquitetura da obra lhe interessa mais do que o desenvolvimento subjetivo das personagens.
Seus filmes são épicos cujo centro não é o humano, mas a técnica. Mais especificamente, as técnicas de manipulação do tempo. O ideal de Nolan é contar sempre a mesma história, submetendo-a, a cada filme, a um novo princípio de subversão temporal.
Não é que não existam Deuses em sua Odisseia. É que só restou Chronos. A mesa de edição.
Odisseia woke?
É claro que a polêmica em torno da presença de atores negros no filme é uma estupidez. Mas a sub-representação negra (quase como uma espécie de cota para os redpills ter sobre o que reclamar, aumentando o hype do filme) não deixa de revelar uma certa incoerência estrutural.
Não porque pessoas negras só tenham sido inventadas depois de Homero, como parecem acreditar os redpills. Mas porque a Odisseia de Nolan, assim como seus demais filmes, tem como centro não o mundo grego, e sim a culpa branca cristã.
Como observa Jonathan Pageau, artista e pesquisador do simbolismo cristão, o filme de Nolan funciona como uma espécie de Cavalo de Troia: promete representatividade na superfície para entregar, no interior, a narrativa mais familiar e tradicional possível. Odisseu retorna para a família tradicional cristã depois de passar sete anos doidão vivendo uma utopia hippie ao lado de sua terapeuta, Calipso, enchendo a cara de flor de lótus. Êeeee vidão…
Inclusive, o melhor comentário que li sobre essa polêmica apareceu justamente num fórum cristão conservador:
“A Odisseia tem a aparência externa de um típico filme moderno ‘woke’, mas esconde a mensagem muito tradicional e patriarcal do original. Parece que isso passou despercebido por pessoas tanto da esquerda quanto da direita.”
Não por acaso, Eliot Page, um homem trans, interpreta Sinon – personagem da Eneida inserido por Nolan na história para ser enganado e sacrificado por Odisseu. E Circe, que transforma homens em porcos “porque é isso que eles são”, também aprisiona mulheres, transformando-as em pássaros, sem o menor traço de sororidade.
É claro que os racistas vão chiar porque, para eles, a beleza de Helena jamais poderia ser encarnada por uma mulher negra. Mas quem presta atenção às artimanhas da representatividade percebe outra coisa: Lupita Nyong’o interpreta, com enorme competência, justamente a mulher que 1) motiva a guerra e 2) trai o marido.
Nada de novo sob o sol.
O único gesto verdadeiramente subversivo, dentro desse universo simbólico conservador, seria colocar Lupita no papel de Penélope.
Aliás, o filme seria realmente polêmico se levasse às últimas consequências o ordenamento ético do mundo clássico, abandonando a componente cristã — claramente anacrônica, mas indispensável para tornar a história palatável ao grande público.
Seguindo a leitura de Muniz Sodré em Pensar Nagô, o princípio cosmológico que organiza a Odisseia estaria muito mais próximo de um terreiro de candomblé do que de uma igreja. Nesse universo, os monstros não seriam alegorias morais, mas entidades.
Isso, sim, seria insuportável ao público – sobretudo para os conservadores de esquerda.
Ulisses, Cavaleiro das Trevas
Nolan é frequentemente retratado como alguém que luta pela salvação do cinema (uma espécie de Kleber Mendonça com dinheiro). Em tempos de CGI, aposta em efeitos práticos, filma em IMAX e insiste em tecnologias que só fazem sentido na experiência da sala de cinema. Há algo de poético nisso? Talvez. Mas não deixa de ser curioso que Nolan tenha feito um filme que simplesmente não pode ser visto por falta de salas capazes de exibi-lo em sua forma ideal. Sua defesa do cinema guarda algo de elitista, assim como certa ética presente em seus filmes. Não por acaso, Nolan insistiu para que Tenet fosse lançado nos cinemas… em plena pandemia. A nobreza em defender uma arte cuja experiência “verdadeira” custa 70 reais por cabeça.
Ulisses é Batman: o herói sombrio, atormentado pela culpa ao perceber que sua própria vitória engendrou o mal que agora julga combater. A fortuna dos Wayne é inseparável da ordem social que produz Gotham. Para enfrentar o mal criado por suas próprias mãos, Batman se transforma num miliciano, rasga a Constituição e vira o universo pelo avesso. Como resultado de suas ações, o crime escala a um novo patamar de insanidade.
Culpa, culpa, culpa.
O Ulisses de Nolan é o herói que, para vencer, também rompe a Lei de Zeus: a ordem ética suprema que estruturava o mundo da Idade do Bronze e orientava todas as suas ações. Em termos simples, rompe o princípio da hospitalidade como fundamento comunitário do mundo pré-moderno. Ao transformar o estrangeiro em ameaça, o Ulisses de Nolan contribui para converter a xenofobia em horizonte moral do Ocidente.
Culpa. Culpa. Culpa.
Mas Nolan não foi o primeiro a transformar Odisseu em uma figura assolada pela culpa. A Eneida, de Virgílio, já fazia de Ulisses um personagem perseguido pelas memórias da guerra. E Dante já havia reservado um lugar para o herói no Inferno.
A novidade é que Ulisses nunca tinha sido Oppenheimer. Nem Rambo: programado para matar.
Ruim com eles, pior sem
Como observa Emily Wilson, tradutora da Odisseia, o épico de Nolan não afirma que a guerra e o assassinato são maus. Afirma algo bem diferente: que, às vezes, homens bons podem se sentir mal por matar. É justamente por isso que a carnificina final é celebrada como um gesto de justiça, embora ninguém tivesse a obrigação de saber que a peste daquele homem ainda estava vivo, doidão de lótus na praia.
Ao contrário do poema homérico, o filme não concede voz aos antagonistas, cujos valores não diferem substancialmente dos de Ulisses. Afinal, ele também é um grande trapaceiro. Como observa Jason Baxter:
“O Odisseu de Nolan é atormentado pela culpa de ter participado da destruição do Oriente pelo presidente dos Estados Unidos (os gregos). Ele sente que foi cúmplice na destruição não apenas de uma civilização, mas da própria civilização.”
O problema é que, dentro do universo moral do filme, a alternativa a esse sentimento de culpa seria a vitória do Coringa – ou dos ciclopes, das sereias, de Calipso, dos chineses, dos venezuelanos e de toda sorte de seres monstruosos. Fiquemos, portanto, com o mal menor – os EUA.
Nolan reencena a Odisseia para nela encarnar o já manjado sentimento de culpa estadunidense que, tal como Neymar, chora muito e produz pouca diferença.
Pois se o sentimento central do filme é a culpa, o verdadeiro arco narrativo é a redenção: a reconciliação do herói com sua própria sombra e o reconhecimento de que sua hybris destrutiva teria sido o preço necessário para a fundação de um novo mundo – tão branco quanto seu antecessor.
Na tentativa de impor seus valores ao mundo, os Estados Unidos – ou o Ocidente branco – acabam destruindo justamente os valores que juram defender, instaurando o caos e a barbárie. E qual é a solução imaginada pelo filme? Voltar para casa, descer o cacete em todo migrante e não branco que ocupe sua casa/país e rezar para que o filho, ainda imaculado pela guerra, não repita os mesmos erros do pai. Mais uma vez, o futuro aparece como a promessa de uma civilização ocidental redimida.
Aí dentu, Nolan.