
I
Eu não sinto raiva de Edson Gomes. O que eu sinto é medo.
Ontem assisti a mais um show do artista. E, mais uma vez, a sensação de que boa parte da potência de sua apresentação está no público. Uma pegada tipo Racionais anos 90. Papo reto, sem curva, atenção ativa.
Faz tempo que o músico tem entrado em embates mais diretos com a classe média progressista. “Vírus chinês”, “doutrinação comunista” – só ideia torta.
Essa classe média é chata e fala pra caralho. Edson Gomes também. A treta é certa.
II
Que nosso narcisismo não nos engane. Edson Gomes briga com a gente como um famoso que, de vez em quando, responde um anônimo no Twitter. Ele briga com a gente, mas não é com a gente que ele se comunica. Com essa galera está preocupada com o posicionamento político do Messi, com o machismo na letra da música do João Bosco.
Nada contra. Eu até gosto. Em certa medida, vivo e me alimento disso.
III
(Organização estrutural do texto. Acrescentar um paragrafo antecipando eventuais críticas. Dizer que eu não estou dizendo que Edson Gomes está certo. Eu não estou passando pano pro Edson Gomes. Eu não estou negando a importancia de criticar o posicionamento do Messi. Fim do parágrafo).
IV
Ontem, na praça onde aconteceu o show, no festival de inverno de Garanhuns, uma turma de umas dez adolescentes – meninas, na maioria – entre treze e dezesseis ano, se mobilizou para botar pra correr um homem bem mais velho. Um suposto assediador, supostamente armado. E só se entra (supostamente) armado na praça com uma suposta conivencia policial.
É com essa galera que Edson conversa. É pra essa galera que Edson cumpriu o papel de mestre. E, por essa galera, Edson fez mais, infinitamente mais, do que aqueles que o criticam.
V
Por isso eu não sinto raiva de Edson Gomes. E eu desconfio que vocês também não. A raiva é só um mecanismo criado para esconder o sentimento real, bem mais assustador.
O que eu sinto, o que nós sentimos, é medo.
Pois Edson é muito maior do que eu. Muito maior do que você. E, se esse discurso alucinatório conseguiu capturar e cooptar o melhor dentre nós, o que será de nosso futuro?
O que será de nós, que não temos um décimo de sua sabedoria, potência, inteligência e sagacidade?
Estamos fodidos.