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Notas sobre a Copa II: Torcendo pela briga

1

Numa eventual final entre França e Argentina, eu torço mesmo é pela briga.

Na verdade, se o critério for exclusivamente a bola, minha simpatia é pela Argentina. A França tem, com sobra, o melhor time da Copa. Mas a Argentina vem entregando os melhores jogos.

Houve apito amigo? Acho que sim – embora isso também seja discutível. Ainda assim, se o Brasil tivesse sido beneficiado pela arbitragem contra o Egito, muito provavelmente teria levado o terceiro gol em vez de virar para 3 a 2.

Porque o Messi, meus caros, o maior gênio do futebol da atualidade, simplesmente não é deste planeta.

Com todo respeito ao Mbappé, que é um monstro, ele ainda tem que comer muito cuscuz pra chegar no Messi.

Mbappé é um ser humano extraordinariamente talentoso, e ninguém duvida disso. Mas Messi pertence a outra espécie: Michael Jordan, Ronaldinho Gaúcho, Michael Schumacher, Usain Bolt, Muhammad Ali. Figuras que excedem os limites da capacidade humana e diluem as fronteiras entre o possível e o impossível.

O que o Messi está fazendo nesta Copa é um negócio absolutamente inacreditável. Pode ser que o Mbappé chegue lá um dia. Mas, por enquanto, ainda falta um bocado.

E não se preocupem: Mbappé é jovem, e ainda tem muito tempo para decepcionar os progressistas que hoje o transforma em símbolo político.

Lembram quando o Vini Jr. era um xodó da esquerda por suas posições antirracistas? Isso foi praticamente ontem… O que aconteceu para esse encanto desaparecer tão depressa?

No fim, a dúvida sobre o que verdadeiramente seduz: o posicionamento político em si ou a posição de poder ocupada por quem o enuncia?

II

“Ah, mas a Fifa está beneficiando a Argentina.”

Tipo como beneficiou o Brasil em 2002? Ou como beneficia o futebol europeu desde que o futebol existe?

É sério mesmo que a Argentina comprou a Copa? Com que dinheiro?

Foi o Trump quem resolveu injetar milhões para favorecer um país latino-americano que ele despreza? Ou a Fifa decidiu, de repente, que não quer ver confirmada uma suposta hegemonia europeia? Não seria mais fácil imaginar um Sheik com mais grana que o PIB da Argentina comprando a copa pro Qatar?

Será que o Messi prometeu uma tórrida noite de amor ao presidente da Fifa?

E, se foi isso (a hipótese mais plausível), o Messi não merece ganhar a Copa apenas pelo tamanho do sacrifício?

III

Vou apostar em uma teoria da conspiração reversa.

E se toda essa campanha para reduzir os feitos da Argentina a roubo, favorecimento e trapaça for, na verdade, uma orquestração europeia para angariar simpatia pelo colonizador?

Talvez porque eles simplesmente não suportem a ideia de grandes potências do Velho Continente serem derrotadas por um bando de “macaquitos” que, para piorar, ainda tem a audácia de se considerar branco também.

IV

Agora bora combinar um negócio muito sério.

Todo mundo que disser que torce pela França por ser contra o racismo da Argentina está proibido de citar Fanon e Mbembe até a próxima Copa.

Quero ver se vocês bancam sacrificar a própria bibliografia “decolonial” em nome da convicção de que não estão apenas trocando um racismo por outro mais confortável — como observou o camarada Maurício Troiano.

“Mas é porque a seleção francesa tem pretos e pardos.”

A holandesa também tinha. E faz tempo. Lembram? Pretos e brancos mal se falavam fora de campo.

Os Estados Unidos também têm vários jogadores negros em sua seleção. Isso faz dos EUA um exemplo de antirracismo?

E o Brasil? Eu lembro da torcida do Grêmio. Eu vi a cor da torcida brasileira em Miami. E vocês?

Sendo assim, acho que vou torcer pelos Estados Unidos daqui pra frente. Afinal, o camarada Trump lutou com unhas e dentes pelo fim da suspensão do Balogun, um homem negro retinto.

Vai ver o Kanye West estava certo o tempo todo, e o mano Trump realmente não faz distinção de raça.

V

É curioso ver como tanta gente se declara antiidentitária porque descobriu que essa é uma excelente maneira de continuar se dizendo de esquerda sem precisar sujar as mãos.

Mas quando uma lorota identitária descarada, mas conveniente, grita na sua cara, ela é rapidamente acolhida com gosto. De repente, essencialismos, símbolos e representações voltam a ser decisivos, desde que endossem o ponto de vista desejado.

Chegando ao ponto do próprio Kleber Mendonça endossar a ideia mequetrefe de que a seleção francesa seria a nova seleção brasileira.

VI

Particularmente, eu gosto muito daquela resposta debochada a pergunta sobre a possibilidade de existir racismo reverso:

“É sim, é só alguém inventar uma máquina do tempo e reverter o processo colonial, sequestrando europeus pra trabalhos forçados em África e nas colônias africanas”.

É possível a França ser um novo Brasil? É sim, é só alguém inventar a maquina do tempo e reverter o processo colonial, pra França deixar de representar a consolidação de um roteiro previsível em que o Colonizador é vitorioso em um mundo criado para sua vitória e se tornar a experiência de um milagre profano a inventar horizontes de simbolização inéditos a partir de um corpo totalmente desumanizado.

O identitarismo produz até essa fantasia: a França – repito, a França – como símbolo de vitória dos Condenados da Terra.

VII

Por outro lado, há um aspecto dessa comparação — que vi sendo formulado pelo Makely Ka — de que gosto bastante.

A França tem hoje uma seleção profundamente miscigenada, em certos momentos mais preta do que branca. Isso mostra que o Brasil, de fato, sempre apontou para o futuro.

Não para um futuro antirracista, decerto, mas para um futuro em que se articulam o ódio racial e étnico com a celebração da mestiçagem quando convém aos donos brancos do poder.

Nesse sentido, pode-se dizer que o modelo estadunidense de racismo sempre foi mais estúpido e menos sofisticado que o nosso.

Brasil, país do futuro.

VIII

Eu torço contra a França por puro ranço. Mas entendo perfeitamente quem torce contra a Argentina pelas mesmas razões — talvez até mais do que entendo as minhas próprias.

Acontece que eu tenho uma queda muito maior por Maradona e Messi do que por Zidane e Mbappé.

E, depois de acompanhar praticamente todos os jogos desta Copa, digo sem medo de errar: NINGUÉM é capaz de fazer o que o Messi faz.

Ao menos, ninguém que seja humano.

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