
I
Em 1882, Machado de Assis publicou um conto extraordinário chamado O espelho. Nele, a personagem Jacobina defende a teoria de que todos nós possuímos duas almas: uma interior, ligada aos valores mais profundos de nossa identidade; e outra exterior, formada pelos signos de reconhecimento que o mundo nos devolve – cargo, prestígio, dinheiro, seguidores. Certo dia, ao se ver completamente isolado numa fazenda escravista, sem ninguém para afirmar sua distinção social, Jacobina praticamente perde sua alma interior. “O alferes eliminou o homem”. Só a exterioridade existe.
Foi isso o que vimos com a atuação medíocre da pior seleção brasileira que eu já acompanhei em Copas: um time sem alma interior. A despeito de todas as questões políticas, econômicas e esportivas, me parece que a síntese do problema é que o futebol brasileiro vendeu sua alma. Não sei exatamente quem a comprou, mas sei bem quem assinou o pacto: Neymar Jr. O maior símbolo geracional (alma exterior) é também o pior derrotado da história (alma interior). Desde o 7X1 nos tornamos um fantasma, absolutamente incapaz de se identificar no espelho – a camisa amarela, sequestrada, já não nos serve como farda de alferes.
II
De todas as críticas que possam ser feitas a Neymar, a menos interessante é a que reencena o velho teatro da produtividade. “Neymar tinha tudo para ser o melhor de todos, mas preferiu gastar a carreira com festas, mulheres e ostentação.” Uma vez mais a ética protestante, agora em versão espetacularizada. Como se a única medida possível de uma vida fosse produzir cada vez mais, trabalhando incessantemente em escala 6×1 até a morte sem aposentadoria. Quase como se Neymar fosse um “vagabundo que vive de Bolsa Família”, em versão esquerdista. A crítica moral a Neymar acaba reproduzindo exatamente a lógica que pretende condenar: a crença de que reprodução do capital e sentido da vida são dimensões coincidentes, e não opostas.
III
É particularmente constrangedor acompanhar o grau de subserviência da mídia esportiva brasileira. Não é apenas o bolsonarismo que encarna esse modelo de patriotismo lambe-botas. A diferença é que, no caso da mídia esportiva, o saco a ser lambido não é o estadunidense, mas o europeu. Jogadores só prestam se atuam na Europa, e qualquer timinho da segunda divisão europeia vale mais que um campeão da Libertadores.
É vergonhoso ver como os caras simplesmente não sabem o que dizer quando um Paraguai bate uma Alemanha, ou o Congo engole a Inglaterra. Nesses casos, o que se pode observar é um verdadeiro curto-circuito cognitivo.
A propósito, essa legião de baba-ovos deslumbrados mal consegue ocultar o desejo de que os EUA se tornem uma grande potência no futebol: desse modo, não precisariam lidar com o horror de se deparar com a fantasia que o futebol encarna cotidianamente – um mundo em que os EUA ocupam o lugar de insignificância que lhes é de direito.
Mas o pior nem é isso. Difícil mesmo é reconhecer essa mentalidade de derrotado em vários jogadores brasileiros criados a base de pera e Leite Ninho na Europa. O problema não é a falta de vontade, mas a colonização do imaginário de jogadores que acreditam mais no discurso dos Europeus sobre si do que em sua própria história.
IV
Diante dessa completa cooptação do imaginário pela métrica do colonialismo, que nos transforma em derrotados antes mesmo de entrar em campo, o patriotismo alucinado de Galvão Bueno – para quem o Brasil é SEMPRE o maior do mundo, apesar de todas as evidências em contrário -, não deixa de encerrar uma curiosa forma de realismo. Afinal, entre o delírio ufanista e o complexo de derrotado, talvez seja esta última a fantasia mais perigosa.
Por melhores que sejam as seleções europeias, o Brasil conserva algo que elas jamais terão. A geração de Pelé e a hegemonia que se estendeu até os anos 2000 nos transformaram no grande símbolo mundial do brilhantismo e da potência criativa dos povos periféricos. Os europeus podem cumprir todas as metas e, consequentemente, vencer todos os torneios. Mas apenas nós somos a materialização de um mito. A seleção francesa, por exemplo, joga um futebol de altíssimo nível. Mas é uma excelência antipática, um futebol insuportavelmente bom. Ser bom é tudo o que eles são e, por incrível que pareça, isso é muito pouco. A excelência produz vencedores, mas não mitos.
V
Se antes era famosa a oposição entre o futebol-prosa (Europa) e o futebol-poesia (América Latina), a transformação do futebol em um negócio bilionário global acabou por hegemonizar o futebol-planilha, marcado pela progressiva perda de importância da imaginação (Milly Lacombe). Os jogadores tornaram-se meros executores: corpos ultra produtivos que delegam a função criativa ao técnico, personagem que, por definição, opera no plano burocrático-estratégico.
Contra tudo isso, o futebol xamânico de Lionel Messi. Mas, e depois dele? Quem salvará a alma do futebol dos experimentos laboratoriais europeus? O Brasil, cada vez mais um império agroexportador movido por marombeiros fundamentalistas? Não parece haver muita esperança…
VI
A Copa dos protagonistas: Donald Trump, que entende tanto de futebol quanto qualquer estadunidense médio, ligou para o presidente da FIFA para pedir a retirada do cartão vermelho de seu melhor jogador. Depois fez questão de contar ao mundo inteiro. Afinal, o importante era lembrar quem era o dono da bola.
A Copa da representatividade: negros, brancos, homens, mulheres, gays, héteros, jovens e idosos. Todos, sem exceção, têm exatamente a mesma oportunidade de protagonizar um comercial de BET.
VII
Nada me tira da cabeça que essa é a Copa das IAS. Inclusive, perguntei pro Chat GPT se essa HIPÓTESE fazia sentido e ele disse “sim, que sacada fantástica”! Minha desconfiança se deve, sobretudo, ao grande número de estatísticas absurdas que se multiplicam a cada jogo: “Suécia e Noruega fizeram o jogo com o maior número de consoantes da história das copas”; “a seleção Portuguesa possui o elenco que mais usa shampoo anti caspa”; “o jogador X foi o canhoto que mais usou o pé direito em uma única partida”. Um amontoado de informações absurdamente precisas e, ao mesmo tempo, rigorosamente inúteis. Não é exatamente esse o tipo de sentido algo non sense que uma IA desregulada produz?
Aliás, esta Copa tem oferecido excelentes exemplos de como as IAs podem influir negativamente na realidade. Gols anulados porque a bola raspou no cabelo do atacante; impedimentos marcados por causa de uma unha do dedão. Nada disso seria captado a olho nu e o grau de minúcia e precisão – que supostamente aumentaria a imparcialidade – acaba produzindo o efeito contrário: a completa subordinação da lógica do jogo ao universo delirante das IAs. Rigorosamente, a Croácia foi eliminada da Copa por uma IA alucinada. Nesse caso, as IAs não estão apenas inventando fatos que não existem, mas decidindo o que é a realidade para além dos critérios humanos. Tipo 2001 – uma Odisseia no Espaço.
VIII
Ganhar a simpatia do povo brasileiro pode ser um fardo terrível.
O goleiro Vozinha, herói da histórica vitória de Cabo Verde contra o tedioso poderio espanhol, foi “presenteado” com milhões de seguidores brasileiros não solicitados. O que equivale à atenção indesejada de milhares de crianças mimadas, criadas em apartamento (as redes sociais) pela avó (Elon Musk). Mas a provação do arqueiro cabo-verdiano não foi de todo inútil. A primeira providência de Vozinha após a fama inesperada foi atualizar sua lista de contatinhos, adicionando cerca de duas mil mulheres do mundo inteiro a seu perfil. 🤡
IX
Toda vez que os europeus tomam uma sapecada de latinos e africanos, eles tentam mudar as regras do futebol. O técnico italiano reclamou que há times sul-americanos demais na competição; outros cogitaram substituir os pênaltis por algum critério supostamente mais justo – e não deixa de ser engraçado ouvir saqueadores clamando por justiça. E assim vão transformando o esporte em outra coisa, sempre a seu favor, com a conivência da FIFA, que abana o rabo para onde o dinheiro aponta. A continuar nesse ritmo, já já aparece uma nova regra: dois jogadores pretos não podem fazer gol na sequência – afinal de contas, o futebol é um esporte que prima pela diversidade.
X
Cabo Verde contra Argentina. Um sentimento de orgulho que não cabe no peito. A satisfação de ver calar a boca de comentaristas lambe-botas. Chorar feito criança. Saber do jogo e saber-se maior que o jogo. O Deus dinheiro reduzido ao que ele é: um ridículo pedaço de papel. Sentir-se mais brasileiro assistindo a Cabo Verde do que ao Brasil. A cada quatro anos, amar o futebol.