
I.
Sejamos diretos: não há qualquer problema em Mano Brown se declarar como um homem pardo – muito pelo contrário. Do ponto de vista político, a categoria “negro” sempre englobou pretos e pardos; reconhecer-se, portanto, simultaneamente pardo e negro não constitui contradição, mas fidelidade à formulação histórica do Movimento Negro. Não foi o que disse Sueli Carneiro, em conversa com o próprio Brown, ao apontar que a maioria da população carcerária brasileira é parda e que, portanto, excluí-la da categoria negro significaria enfraquecer o próprio horizonte da luta antirracista?
II.
Raça é uma invenção. Mais do que isso, uma invenção perversa pra cacete. Não existe nada de falso dentro de seus marcos, pois nada em seu entorno é propriamente verdadeiro. Nada de “falsa consciência”, portanto: o pardo existe, assim como o mestiço. Até mesmo o “marrom bombom” pode existir, se assim for a vontade de Deus. Existem porque foram enunciados: a racialização não trata de substâncias, mas de processos sociais inscritos em dispositivos de poder. Questionar a legitimidade dessas identidades é desconsiderar a materialidade histórica da experiência social e política dos sujeitos racializados.
III.
Desqualificar a consciência racial de Brown – que ensinou a tantos de nós que não se compreende raça fora dos limites do capitalismo periférico – pelo fato de ele se declarar pardo equivale ao mesmo equívoco político, estratégico e conceitual de desautorizar o pensamento de Abdias Nascimento por ter se casado com Elisa Larkin. Assim como é um erro não reconhecer a especificidade parda/mestiça da maioria de nossas irmãs e irmãos, inclusive como condição para articular processos de luta afro-indígenas. Não acolher essa diferença é botar a perder a própria luta negra no Brasil. O que precisamos é tomar vergonha na cara e voltar a Kabengele para rediscutir a mestiçagem a partir de nossos próprios paradigmas, sem entregar de bandeja para os Risérios da vida.
IV.
Dito isso, por aqui ninguém é bobo. Sabemos que essas discussões não se dão no vazio, nem brotam em árvore. O mundo atravessa um de seus momentos políticos mais reacionários desde a ascensão do nazismo. A branquitude botou todas as asinhas de fora, atacando simultaneamente em diversas frentes, sem vergonha de assumir seu gozo diante do genocídio. Daí a necessidade de distinguir o reconhecimento legítimo da identidade parda e mestiça das formulações ideológicas que têm se articulado em torno da noção de “parditude”.
V.
A identidade parda existe – ou não existe – tanto quanto a identidade negra existe – ou não existe. Pensar essa identidade não constitui problema algum; ao contrário, trata-se de um ponto de partida evidente para qualquer Movimento Negro de matriz materialista, que parte do princípio de que a América Latina não é os Estados Unidos. O problema é fazer isso desde uma perspectiva politicamente conservadora, como ocorre com a parditude. Não por acaso, o movimento foi rapidamente abraçado por formas diversas de identitarismo branco: afinal, seu efeito político imediato é fragmentar a identificação coletiva entre pretos e pardos, desde uma lógica assumidamente identitária.
VI.
Tanto aqueles que abordam o pardo a partir de um lugar de falta, como insuficientemente negros (não se esquecer jamais da “clarinha de turbante”), quanto os pardos que não reconhecem um horizonte comum de luta com seus irmãos de sofrimento (todos negros aos olhos da polícia) compartilham o mesmo horizonte neoliberal de desagregação e captura. Pardos, pretos e indígenas se separam quando a farsa redistributiva do capitalismo chega ao seu limite. Se é cada um por si, o pão nosso de cada dia nos dai hoje – e que se foda o resto. Quem terá direito à quantidade maior de migalhas? Esse sempre será o limite histórico das lutas políticas estruturadas pelas lógicas redistributivas de humanização do Capital.
VII.
Primeiro como tragédia, depois como farsa. Uma das principais estratégias de contenção da revolta negra no período colonial foi a criação de políticas específicas para mulatos – um pacote duvidoso de “agrados”, mas com efeitos materiais concretos. Aos poucos, esses mecanismos instituíram práticas de desidentificação que fragilizavam o caráter coletivo da resistência. Um movimento de dessolidarização racial que, no Brasil, mostrou-se frequentemente vitorioso – quem de nós não conhece um mais velho que recusava identificar-se como negro, por considerar o termo perigosamente próximo à condição colonial?
Quebrar a alma do nosso povo para facilitar o trabalho da desumanização. O chicote completa o serviço.
VIII.
Como lembram Lia Vainer Schucman e Érico Andrade, “a força da categoria negro reside na solidariedade construída entre pretos e pardos, que, apesar das diferenças, compartilham a experiência histórica da subalternização e da violência racial”. Não há qualquer falseamento em Pedro Paulo — que é Brown, e não Black — ao se reconhecer fenotipicamente pardo e politicamente negro. Aliás, basta observarmos as diferenças entre Mano e Carlinhos, ambos Brown, para entender que a autorrepresentação mestiça não constitui, necessariamente, um impedimento à radicalidade negra. Existe, contudo, um risco político enorme em afastar espiritualmente pretos, pardos e indígenas. Sobretudo agora, quando os brancos, sedentos por sangue, redescobriram o gosto pelo genocídio. Gostemos ou não, para eles, somos todos negros descartáveis.
IX.
Assumir uma identidade afro-indígena global significa reconhecer que, na possível guerra que se avizinha, estaremos ao lado dos irmãos venezuelanos contra os Estados Unidos, e da Palestina contra a branquitude sionista. A conta é simples: separados, somos alvos fácil. Não custa lembrar o destino dos pardos que, apartados de sua comunidade, escolheram sentar-se à mesa dos brancos em Bacurau. Ou o destino trágico dos negros que, ao longo da história, não aprenderam com os mais velhos a reconhecer aqueles que, na batalha, deveriam ser chamados de irmãos. Dentre outras coisas, Negritude é também o nome de estratégias pardas de sobrevivência.