
De uma coisa vocês podem ter certeza: no meio do samba, ninguém recebe o título de presidente à toa.
Se você, por astúcia e engenho, decidir sair de casa neste momento para curtir um pagode — seja numa roda de samba mais tradicional, seja num show do Belo — será inevitavelmente atravessado pela história do Cacique de Ramos. Não há exagero algum nisso: o Cacique de Ramos fundou, literalmente, um novo paradigma de linguagem dentro do samba, sintetizado pelo grupo Fundo de Quintal — responsável pela consolidação do que podemos chamar de samba moderno.
Sob às sombras de encantada tamarineira, é o tempo que se confunde: repique, banjo, tantan e pandeiro. A roda de samba mais tradicional, que ecoa espíritos pré-abolição, é criação moderníssima, sintetizada ao longo das décadas de 1960 e 1970 pelas mãos de homens e mulheres negras dos subúrbios cariocas, gravitando em torno da revolução que encontra sua mais radical formulação pelas bandas do Cacique.
Não me lembro da última vez em que fui a uma roda de samba que não se desse sob o império de Ramos. Talvez porque isso seja uma impossibilidade estrutural, como uma fala que se dá fora da linguagem. Entendem a grandeza disso? Assim como não podemos sair de Bach, não podemos sair do Cacique.
Permitam-me colocar nos seguintes termos: em plena ditadura militar, o Cacique de Ramos organizou um espaço alternativo de ocupação negra na cidade, desafiando a lógica de espetacularização representada, então, pelo recém-criado sambódromo. Assim como a MPB, o Cacique de Ramos se constituiu como um movimento cultural e político que se opunha ao modelo de desenvolvimento promovido pelo regime. E assim como a MPB, essa movimentação cultural e política resultou em um novo paradigma estético, que mudaria a história da música brasileira como um todo.
Diferentemente da MPB, contudo, essa história de resistência é absolutamente negra. E, por isso, raramente é contada assim, como resistência política. Já estamos acostumados.
Não há como medir a importância histórica, cultural e artística do grupo Fundo de Quintal. Por isso o tamanho de nossa dor diante da partida do mestre Ubirajara Félix do Nascimento, fundador do maior bloco de carnaval do planeta e do maior grupo de samba de todos os tempos. Sua relevância é comparável à de um Paulo da Portela, na consolidação do lugar social do samba como modelo democrático fundado nos quilombos, e à de um João da Baiana, no que se refere à tradição e ao toque do pandeiro.
Mestre Bira Presidente era pura elegância – esse nome que se dá a habilidade dos nossos de assumir a postura necessária para fazer o que precisa ser feito em nome do que se acredita. Elegância é armadura. Fosse músico de jazz, sua linhagem seria a de Miles Davis.
Dia triste, mas, ao mesmo tempo, encantado — o mundo do samba reconhece e reverencia vossa grandeza. É de extraordinária beleza termos fundado um território de linguagem em que podemos, a despeito de tudo o que este país que fazer de nós, reconhecer e celebrar a soberania e a grandeza de nossos maiores.
Obrigado, mestre, do fundo do nosso quintal.