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O que é literatura? O caso Paulo Coelho

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Ao ler Paulo Coelho, a crítica séria – seriamente ancorada no viés da autonomia – reconhece nele apenas a insuficiência de seu trabalho com a forma. A partir daí, a recusa do abjeto: Paulo Coelho não é literatura e, consequentemente, nada temos de interessante a dizer sobre ele. Dispensemos-lhe, pois, uns piparotes, e não cuidemos mais disso.

Ora, não ter nada de interessante a dizer sobre um dos maiores fenômenos literários da história do país – gostemos dele ou não–, a não ser reafirmar que não se trata de literatura, revela mais sobre a insuficiência do crítico do que da obra. . Afinal, se o que nos encara não é literatura, paciência: precisamos de um olhar comprometido a tal ponto com a Verdade que esteja apto a reconhecer e nomear aquilo que ele é. Seu dever é tornar o vazio um ser de linguagem, para que este possa adentrar o reino dos espíritos e nos revelar algo de interessante sobre nós a partir da relação entre forma artística e processo social.

O que a crítica diz ao dizer o Literário? Não faço ideia, mas desconfio ser menos sobre o que as coisas são do que sobre as contas que se acumulam no fim do mês. Descreva sua função em vinte caracteres: Crítico L.I.T.E.R.Á.R.I.O. Sim, literatura é isso, eu sei do que se trata. Pode mandar o pix.

No auge de sua popularidade, a literatura de Paulo Coelho antecipava esteticamente a guinada exotérica liberal-conservadora dos paradigmas da contracultura, que culminaria tanto no destino de centro-direita do Partido dos Trabalhadores quanto no horizonte contemporâneo de crise do trabalho, com sua fauna de vigaristas do Vale do Silício, lobistas, coaches, esquerdomachos e jovens místicos reacionários de esquerda. Tratava-se, em suma, de uma radiografia acrítica e adesista de um modelo de capitalismo que se tornava cada vez mais especializado na produção conservadora de modelos de subversão.

(Essa é, logicamente, a leitura acadêmica e mal humorada da obra do Mago. Outra que eu gosto bastante, é a de que O Alquimista não é um romance, ou uma novela, mas a mais famosa tiragem de Tarot dos tempos modernos. Dizem também que a pergunta que deu origem ao jogo poderá ser revelada aqueles versados nas artes exotéricas – revelação esta que mudará a vida do iniciado para sempre. Maktub).

Para quem estivesse disposto a ler, Paulo Coelho constituía uma verdadeira mina de ouro. E não sei quanto a vocês, mas confesso que, se fosse capaz de identificar esse processo histórico em uma bula de remédio, estaria pouco me lascando para o fato de ser ou não literatura.

Responder a isso é tão “importante” quanto saber se Olavo de Carvalho é ou não é filósofo. A linguagem é mais rápida que o pensamento, e a urgência do tema precede sua delimitação.

A dimensão menos relevante da crítica de arte reside na concepção do crítico sobre o que constitui ou não literatura, música, arte, cinema etc. Bem ou mal, todo mundo fica meio Ed Motta nessas horas. Com todo respeito, dane-se se o crítico considera uma obra como literária ou não: sinto informar, mas nenhum de nós é tão importante quanto imagina. O que verdadeiramente importa é sua habilidade em construir uma tecnologia epistêmica capaz de se aproximar dos objetos de linguagem como que de sondas alienígenas, interrogando-os sobre as razões de sua presença em nosso planeta. O que emerge de novo a partir desse encontro com aquilo que até então era incapaz de existir, e para o qual ainda não existe nome? Apenas para não ficar de fora, arrisco dizer que literatura é o nome mesmo desse encontro.

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Acauam

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