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Jards Macalé (1943-2025)

Rip Jards Nu

Jards Macalé é um músico de MPB. Ou melhor: um sambista. Ou melhor: um intérprete. Ou pior: um cancionista.

Recomeço.

Macalé não é um músico de MPB. Ou melhor: um não-sambista. Ou melhor: um anti-intérprete – um não-intérprete. Um fingidor kafkiano a performar distanciamento enquanto navalhas lhe perfuram pacientemente a carne, como um artista da fome ou um faquir da dor.

Cena I. Jards se apresentando no Teatro Oficina. Banquinho e violão – João Gilberto feelings. Atenção aos detalhes: o violão é um violão, mas o banquinho, uma privada. “A bossa nova é FOSSA”.

Cena II. Jards fumando embaixo de uma placa de “É Proibido Fumar”. “Macau, tu não visse o aviso”? “E porque tu acha que eu to fumando aqui”? É proibido proibir.

Isso é muito tropicalista, dirão alguns. Isso é muito punk, dirão outros. Ao que Macalé responde: punk é o cacete! Eu sou é Jovem Guarda, mora? E começa a cantarolar: É proibido fumar / Diz o aviso que eu li / É proibido fumar / Pois o fogo pode pegar / Mas nem adianta o aviso olhar / Pois a brasa que agora eu vou mandar.

Na vida, como na canção, o desejo de subverter o excessivamente conformado, embrutecido, delimitado.

Buscar no que se fecha a abertura infinitesimal para o imponderável.

O que escapa, o que sangra. Ao que outrora chamávamos Amor.

I.

Assim são os gênios: já nos primeiros acordes do primeiro compacto, o DNA do artista se desvela por inteiro. “Soluços” começa como uma canção de amor convencional, apresentando um sujeito em estado de profunda fragilidade emocional (não olhe pra mim / eu posso chorar). Mas, ali onde deveria seguir a trilha subjetiva dos descompassos do coração, a canção muda completamente de rumo para evocar efeitos bem mais comezinhos: chorar dá soluço, o lenço de papel é uma merda e eu ainda não comprei meus óculos escuros…

O amor dói, decerto – mas precisava ficar feio desse jeito? Aí já é sacanagem…

Parte da genialidade da composição reside no inusitado do desvio, que faz coincidir o momento mais dramático da interpretação com o menos dramático da letra, conferindo algo de ridículo ao sofrimento do sujeito – como alguém que dá um piti. A ironia, entretanto, não anula o sofrimento, assim como no humor se reconhece uma boa dose de angústia. O desvio irônico desconversa, como quem esconde o que sente; mas a interpretação deliberadamente exagerada de Jards produz o efeito oposto, passionalizando tudo – inclusive imagens nada românticas, como “soluço”, “lenço de papel” e “óculos escuros”, que conduz a canção por lugares completamente inesperados.

A mudança de registro rompe com a linearidade da representação do sofrimento romântico – ironizando-o. Mas o reconhecimento do ridículo não diminui a angústia do sujeito; ao contrário, intensifica-a. Ao se equilibrar no vazio do inesperado,  a dor se converte em humana condição.

II

Esse deslocamento irônico lembra muito o Noel Rosa do “Último Desejo” e, sobretudo, o deboche performático de Moreira da Silva, por quem Jards era apaixonado.

Com Moreira, Jards compartilhava o amor pelas máscaras e pela arte como jogo, a capacidade de incorporar múltiplas personas e o reconhecimento do humor como a mais séria das linguagens.

III

Uma piada.

“Eu não sabia que isso teria o nome de performance. Eu pensei que fosse suicídio mesmo”.

Uma tragédia.

IV

Das tantas histórias míticas e espirituais envolvendo a figura de João Gilberto, a contada por Macalé é uma das mais belas. É lindíssima a forma como ele narra o dia em que João literalmente salvou sua vida, em que se mesclam dimensões de delicadeza, sensibilidade e culto a beleza. Percebe-se nela toda a sensibilidade estética de Jards, pois a história sobre a humanidade de João não deixa de funcionar também como um comentário sobre seu método, em seu paciente e obsessivo culto à beleza. Bossa nova não é fuga do real, mas atenção cuidadosa ao que na vida se exige de mais delicado.

A vida em si mesma – redemunho: o que ela quer da gente é coragem.

A ligação espiritual com João transborda também na relação orgânica de Jards com seu violão. Não que ele o emule – em certo sentido, nada poderia ser mais distante da bossa nova. João desmontava e remontava canções como quem, de pérolas, extrai joias. Jards também as desmontava, mas para remontá-las com o prazer que uma criança sente ao enfiar a cabeça do Batman no corpo da Barbie. Onde a bossa almeja ordem e organização, Jards busca a anarquia do desejo, o impulso de fazer rir, a tiração de onda, a malandragem pé no chão. Daí jogar em casa em ambientes jamais frequentados pela MPB mais bem vestida, como presídios e manicômios.

VI

Nas interpretações de Jards, deparamo-nos com todo tipo de sujeira e ruído. Ouvimos ele literalmente salivando, babando, gemendo – tudo aquilo que as boas maneiras prescrevem como impróprio aos ambientes familiares. Como na versão alucinada de Blue Suede Shoes, por exemplo. A cada variação a canção vai sendo acelerada e desmembrada, até o ponto em que tudo o que dela resta é ruído e balbucio: a canção reduzida à sua matéria fisiológica mais elementar: sangue, pus, escarro. Ao mesmo tempo em que ironiza a canção – sobretudo, a enunciação “sexy” de Elvis (imaginemos um Elvis que, ao seduzir, começasse a babar) – Jards lhe acrescenta novos padrões de complexidade.

VII

Buscar na canção aquilo que não está pronto. O inacabado. O desforme. O desfeito. O informe como matéria-prima das canções e do amor. Ao trazer à tona elementos que, em geral, não combinam com as bem consolidadas performances do amor passional, Jards lhes acrescenta certo distanciamento – não raro, engraçadíssimos. Ele se diverte quebrando as expectativas burocráticas do amor romântico, como um jovem amante que deixasse escapar catarro pelo nariz no momento de pedir sua amada em casamento.

Nada mais broxante do que isso; afinal o amor verdadeiro é o mais convencional dos sentimentos.

Contraditoriamente, contudo, essa quebra da expectativa romântica acaba por humanizar suas interpretações, fazendo com que elas ganhem em intensidade passional, a despeito – ou justamente por causa – de seu teor cômico. Ao desromantizar ou ironizar suas performances, Jards paradoxalmente as torna ainda mais passionais, como um sujeito que, tomado pela paixão, perdesse o controle de suas funções físicas e motoras. Afinal, como nos ensina Nelson Rodrigues, os verdadeiramente apaixonados não param de babar.

VIII

Jards canta como um bluesman que estivesse a um passo de perder a sanidade – não por ter pactuado com o diabo, mas por se recusar a fazê-lo. Por isso ninguém interpreta suas canções como ele. Seu horizonte brechtiano desmonta o que há de encenação no sofrimento do artista, tão somente para revelar melhor o que ali se apresenta: o faquir da dor, atravessado por lâminas bem reais, a lhe perfurar impiedosamente as carnes. O artista da fome kafkiano deixa de comer não para exibir suas habilidades em jejuar, mas por nunca ter encontrado alimento que lhe agradasse.

Todos conhecemos o flerte real de Jards com o mais extremo dos gestos.

IX

Macalé gostava de lembrar da época em que trabalhou como copista da Orquestra Tabajara – uma dessas funções técnicas dos bastidores da música que não possuem o mesmo glamour do maestro ou dos instrumentistas, mas sem as quais a própria existência do espetáculo é completamente inviabilizada. É desde essa posição que Jards constrói seu lugar de enunciação. O gesto performático de dessacralização estética envolve também um horizonte político. O caráter subversivo de sua persona deriva menos da coerência de posições políticas do que dessa atenção cuidadosa aos aspectos que compõem a dimensão material da arte.

Ele era uma pedra no sapato não apenas dos grandes executivos, mas também da casta de artistas que se imaginam vates e faróis em meio à tempestade. A esses, lembrava constantemente que todo artista brasileiro é, antes de tudo, trabalhador precarizado, e que seu valor reside precisamente nesse ponto. Não por acaso, o rompimento com Caetano Veloso decorre do não reconhecimento do trabalho dos músicos nos créditos do disco Transa. Para Jards, o valor do artista não se define pelo que o distancia, mas pelo que nele se vincula ao trabalho de copistas, iluminadores, técnicos de som e auxiliares administrativos.

X

O tempo não existe

É essa que é a graça

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Acauam

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