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Forma vc Conteúdo

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Esse texto é melhor apreciado ao som do álbum Makumba Popular Brasileira, de Psirico – um negócio absolutamente genial.

Um argumento vem ganhando força no debate estético desde a divulgação da famigerada “Lista de Melhores Livros do Século que Ainda não Foi”, da Folha de São Paulo, reforçado pelo corte polêmico das opiniões da catedrática uspiana Aurora Bernardini: a ideia de que, no cenário atual, a literatura atravessa um momento em que o conteúdo se sobrepõe à forma. Para alguns, um evidente risco à especificidade da linguagem literária em seu aspecto mais potente. Para outros, mais otimistas, uma bem-vinda reordenação dos sentidos de Literatura, a partir de vozes que a constroem desde outro lugar.

Tem também a turma do Deixa Disso: nada com que se preocupar, meu filho, já vimos isso acontecer inúmeras vezes com o realismo, o naturalismo, a ressaca pós-vanguardista, a ficção de 30. Eles passarão; nós, passarinhos.

Pra mim, está todo mundo certo. Ou errado, pouco importa: o fato é que estou adorando ler os textos todos, pois adoro quando debates estéticos mais profundos ganham um caráter público mais amplo, para além do universo dos especialistas.

Mas o que me interessa mesmo é outra coisa. É que na música popular, podemos observar um movimento que, visto com atenção, revela o exato oposto do que vem sendo criticado na literatura. Pois em alguns estilos, é a FORMA que tem se sobreposto ao CONTEÚDO, justamente em estilos muitas vezes considerados esteticamente “inferiores”, como o pagodão baiano ou o funk.

Ou seja, para uma crítica que advoga pelo equilíbrio adensado dos sentidos, incomoda tanto o predomínio da forma quanto o do conteúdo. Valei-me…

Esses gêneros frequentemente operam por meio de um processo radical de dessemantização de seus enunciados, liberando as palavras de seu horizonte de significado e direcionando-as a níveis mais elementares de materialidade. Ou seja, a palavra,  perversamente polida pelo hedonismo neoliberal, transforma-se em tambor. Nos casos mais radicais, ela é quase que totalmente destituída de sua substância semântica para que o artista a manipule em níveis fonológicos mais puros, a cumprir funções essencialmente rítmicas.

“Senta Senta Soca Soca”: palavras-tambor que ganham sentido pelo contraste fonológico entre grave e agudo, a produzir territórios rítmicos ancorados nas funções injuntivas de verbos voltados, em estado de devoção, ao corpo que dança.

O fim do complexo de Épico: a quebradeira do Psirico é a coisa mais linda desse mundo.

Na música popular, a vitória temporária da forma sobre o conteúdo resulta em um deslocamento evidente do núcleo da canção para seu território originário: o corpo em movimento. Não por acaso, a dança vive um momento de pulsão popular extraordinária, que nada tem a ver (ao mesmo tempo que tem tudo a ver) com a vitória do TikTok sobre nossa humanidade.

Não caberia perguntar o mesmo sobre a literatura? Para o bem ou para o mal, o que a supremacia do conteúdo sobre a forma torna possível ao literário? Quais mundos podem emergir desse universo imaterial outrora inexistente? Tati Bernardi? Davi Kopenawa?

Oremos

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Acauam

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