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Seria Superman um herói esquerdista?

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1.

Ao som de um instrumental que remete ao universo dos contos de fadas, acompanhamos o solene folhear de um livro encantado. Um narrador em off nos apresenta a história arquetípica de uma frágil princesa aprisionada em um castelo, vigiada por um dragão, à espera de um príncipe encantado que a libertará com um beijo de amor verdadeiro.

Corta a cena. A última página é rasgada e ouvimos uma descarga, seguida de um riso de escárnio: “até parece que isso vai acontecer”. Assim se inicia uma das fábulas mais emblemáticas do nosso tempo: com Shrek, um Ogro, literalmente limpando a bunda com os contos clássicos da Disney.

2.

A mensagem não poderia ser mais clara: em tempos de avassaladora vitória neoliberal, não existe espaço para a crença ingênua nos valores éticos dos contos de fadas, que se revelam, desde o início, como aquilo que efetivamente são: dispositivos ideológicos de dominação e controle. O ideal de beleza branca das mulheres é uma forma de aprisionamento; a condição de vítima indefesa da princesa reforça a misoginia; o príncipe salvador, rico e poderoso, é um projeto de abusador, etc.

E quem seria o Superman no universo satírico de Shrek? Ora, ninguém menos que a figura mais ridicularizada de todas: o príncipe encantado.

3.

De personagem mais querido do universo dos heróis, a vida do Superman foi se tornando cada vez mais difícil em um mundo cada vez mais pautado pelo cinismo, pela desconfiança e pela concorrência irrestrita. São tempos de realismo capitalista em que os contos de fada não desaparecem, mas os protagonistas são milionários cínicos, como Batman e Homem de Ferro. Nesse cenário, a imagem de Superman é imediatamente colocada sob suspeita, como discurso de legitimação ideológica do poderio militar estadunidense. Seu lema era, literalmente, “Verdade, Justiça e American Way”. Ou seja, a representação imaginária das boas intenções do imperialismo – uma conversa mole que hoje parece difícil de engolir e, sobretudo, de vender. 

4.

“A confiança virou pó. Não se pode acreditar em mais ninguém. A boa fé não existe, a não ser como fachada. A honestidade se reduz a uma reles desculpa para o fracassado: é a única virtude da qual o pobre pode se orgulhar e, pior, é da boca para fora. Só vai enriquecer quem souber substituir a palavra amor pela palavra interesse” (Eugenio Bucci). A crise da personagem decorre, em parte, do fato de que o capitalismo já não necessita mais do Superman para se justificar, mas sim do Batman. Não o império do bem, mas o da necessidade.

Diga-se: O verdadeiro inimigo do Superman não é Lex Luthor, mas o realismo capitalista.

5.

Em um contexto de anomia social profunda, desfazem-se as próprias condições de representação da personagem. Sua ética inabalável é péssima para sustentar uma curva dramática convincente, enquanto seus poderes ilimitados constituem um entrave ao pacto ficcional – o personagem é um típico “apelão”. E mesmo as crianças de hoje em dia parecem se identificar mais com a representação de heróis “gente como a gente”, como o Homem-Aranha, retratado como um jovem trabalhador precarizado que, não por acaso, faz muito sucesso no mercado informal brasileiro.

6.

Há muito deixamos de acreditar naquilo que o Homem de Aço representa. O problema, contudo, é que deixamos também de acreditar na necessidade do que ele simboliza. A ruptura crítica com a dimensão de falsidade inscrita nos antigos mitos – que funcionavam como dispositivos de validação de sistemas de opressão – não nos conduziu a uma sociedade orientada pela verdade, mas sim a formas ainda mais perversas de legitimação do poder, sem limites ou justificativas para além de seu próprio exercício (Žižek). Na ânsia de desmitificar o Superman, acabamos por colocar Shrek no poder.

7.

É esse o tema central do filme: qual o significado do símbolo “S” em tempos em que os valores éticos e morais foram completamente corroídos pela lógica autodestrutiva do capital? Como sustentar noções elementares de ética em um mundo marcado pela liquidez e pela dissolução da própria categoria de Verdade? Pode-se dizer que o filme propõe uma solução engenhosa ao problema, ao recuperar a dimensão mais alegórica da personagem. Ao invés de o paradigma mais sombrio e niilista do Batman de Christopher Nolan, o filme opta por abraçar, sem pudores, o teor mais abstrato e simbólico da fábula infantil.

8.

Esse é o ponto-chave aqui: ainda que não seja enunciado de forma explícita pelo roteiro, o novo Superman é, no fundo, uma criança.

Ele confia em todo mundo, revelando sua identidade secreta a qualquer um; faz birra quando questionado em suas ações; é incapaz de impor limites, mesmo a um cachorro. Não considera as consequências geopolíticas de seus atos, tampouco distingue quais vidas importam e quais não.  Ele é tão infantil que literalmente precisa ouvir historinhas contadas por seus pais para conseguir dormir. E Lois Laine, praticamente a única personagem adulta do filme, é representada menos como esposa do que como mãe.

9.

Por outro lado, se é verdade que o Superman é uma criança, o universo em que a história se passa – apesar de cartunesco – não é. Isso se torna evidente na cena em que o herói se posiciona contra “Israel” e a favor da “Palestina”: no mundo real, é fácil de imaginar uma figura tão ingênua e manipulável intervindo em defesa de Israel, em nome dos “valores americanos”. Daí a questão, no mais, interessantíssima: como confiar na força mais poderosa do planeta, se ela é encarnada por um ser absolutamente ingênuo e, portanto, facilmente manipulável? Sendo mais direto: no que podemos acreditar quando a Verdade deixa de ser uma possibilidade lógica?

Se Deus está morto, tudo é permitido.

10.

Chegamos, aqui, ao núcleo ideológico do filme, à propósito, o mesmo do progressismo liberal. A obra de James Gunn percorre, ponto a ponto, o checklist das pautas progressistas – com mais coragem, diga-se de passagem, do que a média da imprensa brasileira. Posiciona-se de forma clara a favor da Palestina e contra a disseminação de fake news; critica diretamente a perversidade do Vale do Silício e as políticas anti-imigração. Em seu nível mais elementar, o filme é uma declaração abertamente contrária a Trump.

No entanto, cada um desses posicionamentos é atravessado por uma ingenuidade que os esvazia de densidade crítica, tornando a perspectiva política do filme assumidamente “bonitinha” e inócua — algo como As Aventuras de Superman narradas por Petra Costa.

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Ou seja, ao contrário das tediosas críticas dos setores nerds mais reacionários, o horizonte ideológico fundamental do filme não reside no fato dele ser progressista-liberal, ou identitário, mas no reconhecimento de que o ponto de vista esquerdista é, necessariamente, infantil.

Na tentativa de agradar simultaneamente progressistas e conservadores, o filme opta por uma combinação ambígua, que combina ingenuidade (ou representatividade) e cinismo. Em outras palavras, Superman é de esquerda, mas só porque é ingênuo como uma criança de dez anos. Uma aposta ética que reconhece a própria derrota no exato instante em que admite sua necessidade histórica.

12.

Mas isso nem é o pior. O problema não está no fato de um filme hollywoodiano representar escolhas progressistas como fábulas infantis – até aí, nada de novo. O problema é que essa representação, em grande medida, está correta. Vejamos: o filme se posiciona criticamente contra o Vale do Silício e o império das fake news, seguindo à risca a cartilha progressista. No entanto, a “solução” que propõe é ampliar o poder dos oligopólios da mídia tradicional – como se essas mesmas corporações não fossem diretamente responsáveis pelo estado de degradação em que nos encontramos.

13.

Ora, não é precisamente essa aliança entre mídia hegemônica e discurso progressista que define a atual lua de mel entre a esquerda liberal e a Rede Globo “comunista”, que exala “progressismo” até mesmo em programas como o Big Brother? A ingenuidade de Clark Kent é compartilhada por uma parcela considerável da esquerda contemporânea, comprometida com a tarefa de salvar as instituições democráticas — ou seja, as formas já esvaziadas de legitimação de um projeto de destruição global. Uma “ingenuidade” realista e objetiva, pois parte de um diagnóstico – rigorosamente correto – de que não temos muito o que fazer diante do fim do mundo.

A não ser, talvez, sonhar.

14.

Se fosse conservador, o filme provavelmente levaria mais a sério seu conjunto de convicções progressistas – da mesma forma que, hoje, apenas a extrema-direita parece acreditar na possibilidade concreta de uma revolução comunista no Brasil.

Se fosse brasileiro, o Superman seria o único esquerdista a acreditar na luta do PT contra os super-ricos.

Triste fim de Policarpo Kent.

15.

O filme de James Gunn é um curioso exercício de fé sem crença – a aposta na esperança em um mundo em que a própria fé foi completamente capturada pelo comércio. Para sair desse impasse, seria necessário acreditar na Verdade; mas o impasse consiste justamente no fato de que já não podemos nos dar ao luxo de acreditar em absolutamente nada. Sobretudo, em filmes feitos para vender bonecos.

16.

Deixando de lado a nota cínica, contudo, podemos dizer que Superman é o ser mais poderoso do planeta não por sua força sobre humana, mas porque sua verdadeira substância é a fé. Por ser, basicamente, um Deus, ele é capaz de encarnar a esperança de que exista, de fato, um Deus, a furar o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio. Como uma criança. Claro que no filme isso tudo assume um tom comercial, para oxigenar um gênero precocemente degastado. Mas não seria essa forma ingênua e frágil uma maneira adequada de representar a Esperança, posto que a fé exige de todos nós uma espécie particular de pureza? Pureza esquisita e feia, decerto, como a flor do poeta: É feia. Mas é realmente uma flor – ainda que não existam mais garantias.

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Acauam

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