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Ozzy Osbourne

1

Minha singela homenagem ao Príncipe das trevas que nos deixou. Ele, o Arrenegado, o Cão, o Cramulhão, o Indivíduo, o Galhardo, o Pé-de-Pato, o Sujo, o Homem, o Tisnado, o Coxo, o Temba, o Azarape, o Coisa-Ruim, o Mafarro, o Pé-Preto, o Canho, o Duba-Dubá, o Rapaz, o Tristonho, o Não-sei-que-diga, O-que-nunca-se-ri, o Sem-Gracejo,  o Manfarro, o Marafro, o Arre, O-da-Carapuça-Vermelha, o Lá-debaixo, o Condenado, o Excomungado, o Tal-Coisa-que-Anda-de-Noite.

Ele. O “O”.

I.

Guimarães Rosa estava certo o tempo todo: O fato de Ozzy ser uma figura tão miseravelmente carismática é a prova viva que Deus e Capiroto são a mesma entidade.

II

Viver tanto e tão intensamente, contrariando as mais otimistas das expectativas, diz algo sobre a atual obsessão histérica e pornográfica com a chamada vida saudável – i.e. remédios controlados, academia e solidão. Uma forma melancólica de domesticação que transforma a própria ideia de “viver” em uma antecipação permanente da própria morte. A isso, chamamos de “sucesso”.

III

“Falei pra você que não sou mais disso”.

Os tediosos esforços da mídia para limpar a barra do artista. No fim da vida, a redenção: saiu das drogas, se tornou um bom pai de família e uma das maiores fortunas do rock. Viva! Toda biografia de artistas disruptivos segue o mesmo paradigma conformista, conservador e cristão.

É preciso eliminar todo o conteúdo de subversão que fez com que o sujeito se tornasse o que ele é. Toda uma vida no limite da dissolução – radicalidade que garante a verdade estética de sua voz – reduzida a uma fábula moral patética destinada a assustar criancinhas.

Ozzy foi tão desmantelado que, fosse brasileiro, certamente teria nascido cantor de piseiro.

VII

É notório o quanto Ozzy se mostra muito mais convincente como encarnação do “Príncipe das Trevas” do que qualquer vocalista de death metal com gutural forçado. Afinal, o Cramulhão é espírito zombeteiro, mestre do senso de humor, enquanto o metal tende a levar a sério suas maiores idiotices. Ozzy é, antes de mais nada, um grande tirador de onda. E como nos filmes de terror protagonizados por crianças, o que verdadeiramente nos assusta é a dimensão fofa e encantadora do mal.

IV

Filmes de terror são os meus favoritos – e o Black Sabbath é o melhor terror do metal. Eles entenderam tudo: como o terror, heavy metal é sobre ambientação e atmosfera. A música como cenário, meticulosamente arquitetado para fazer brilhar seu protagonista, a entidade maligna que morre a cada filme para ressurgir, cada vez mais insana e absurda, do Inferno.

A faixa de abertura do disco de estreia do Black Sabbath permanece como uma das composições mais assustadoras já registradas. Uma banda que sabe tocar o silêncio, um guitarrista que realiza milagres heréticos com o trítono e um vocalista capaz de mesclar agonia e prazer com a desenvoltura de um Cenobita.

Fosse uma personagem, Ozzy seria Fred Krueger, o mais zuero dos slashers.

V

Black Sabbath é bom como O Exorcista, o melhor filme de terror de todos os tempos. Alguns dirão: “Ah, que não sei que, O Iluminado é melhor, e pipipi popopo”. Vejam: O Iluminado é bom, mas é bom demais. Cinema demais. Kubrick demais. As pessoas mal se lembram do nome do diretor do Exorcista, porque seu diretor é o próprio Pai da Mentira.

O Exorcista não é um filme que dá medo. Mas é o único filme até hoje que faz com que até mesmo o mais convicto dos céticos tenha um ligeiro lapso de dúvida.

“Meu filho, meu amado filho, a criatura mais preciosa da minha vida, era uma criança linda, afetuosa, cheia amor. Mas desde que adentrou essa bendita adolescência, transformou-se no próprio Satanás. Longe de mim dar crédito a tais absurdos, mas e se, por mais absurdo que possa parecer, essa condição demoníaca não for apenas uma metáfora?”

Ainda hoje, O Exorcista é uma das raras obras de humano engenho a deter esse tipo de poder.

O Mal carece apenas desse ínfimo intervalo – fugaz lampejo de incerteza – para se agarrar  a nosso espírito tal qual verme insidioso, lançando a perder, pouco a pouco, a salvação de nossa alma.

VI

É curioso que o Black Sabbath seja considerado o pai do heavy metal. Não contesto a paternidade – de fato, inúmeras variações do metal estão ali – mas não deixa de ser curioso. O metal parece sempre desesperado em performar potência heteronormativa,  enquanto o Sabbath exala medo e fragilidade. A performance de Ozzy sempre me pareceu mais corajosa do que a média do gênero. Reconheço a presença de Iommi nos riffs de Dimebag Darrell e no peso de Andreas Kisser, mas percebo algo dele também na estranha melancolia de Paranoid Android, como uma estranha espécie de parentesco.

VII

A voz de Ozzy soa profundamente verdadeira, mas não necessariamente pelo conteúdo do que se diz. Teria ele, de fato, encontrado com Satã, ou só estava completamente chapado? Considerando que ele passou boa parte da vida adulta chapado, essa é uma pergunta rigorosamente irrespondível.

Contudo, a verossimilhança de sua voz não reside em nos convencer da existência da Besta, mas no fato de ser perfeitamente possível que, em suas inúmeras viagens, ele de fato topasse com algo perturbadoramente inexplicável, a ponto de o levar a comer morcego, cheirar formiga, nadar na areia e conversar com cavalos.

A verossimilhança não provém da certeza do que se diz, mas da ambivalência do delírio, como bem compreendia Brás Cubas ao iniciar suas memórias. Não por acaso, um dos álbuns de maior sucesso do Black Sabbath intitula-se Paranoid – afeto predominante entre uma juventude atiradas as traças no pós-guerra.

Ozzy Osbourne, o Príncipe das Trevas – figura a um só tempo real e  metafórica – encarnou, como poucos, a estrutura paranoica desse delírio que convencionamos chamar de realidade.

VIII

Aliás, existe uma razão para falarmos tão pouco em paranoia hoje em dia, e tanto em outros sintomas, como burnout e depressão: a estrutura da própria realidade tornou-se paranoica. De tal forma que a ambivalência do delírio não é mais uma exceção, mas uma engrenagem constitutiva do mundo contemporâneo, presente tanto na fórmula do melhor metal quanto na lógica fictícia do capital especulativo.

As trevas cantadas por Ozzy expressam o pesadelo da classe trabalhadora ao perceber que das promessas utópicas da classe média de Maio de 1968 restaram apenas a cachaça e a bad trip. Uma parente mais depressiva e dopada da Alucinação do Belchior.

IX

Uma pergunta final, para os “ateístas” de plantão: se Deus não existe, meus camaradas, como é que ele me concedeu o privilégio de assistir ao vivo o Príncipe das Trevas em sua última apresentação em São Paulo? Não só ele existe, como é chegado íntimo do Não-se-ri. Durmam com essa!

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Acauam

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