
Puxo pela memória: Quando terá sido a primeira vez que ouvi um samba de Arlindo Cruz?
As primeiras lembranças que tenho desse universo são da coleção de discos de minha mãe. Morávamos no interior de São Paulo, em uma região que fugia da cultura preta como o diabo da cruz, e até mesmo o Undokai — uma festa divertidíssima e familiar, de celebração da cultura japonesa — era muito mais interessante e vibrante do que o arremedo embranquecido de Carnaval que havia por lá.
Lembro perfeitamente de dois discos que tocavam sem parar lá em casa: O primeiro do Zeca Pagodinho, de 1986, e o álbum de 1988 do Roberto Ribeiro. Eu tinha então cerca de cinco ou seis anos, e esses discos, juntamente com as coletâneas de carnaval que minha mãe comprava religiosamente todos os anos, compõem minha memória matricial do samba.
E onde entra o Arlindo nessa história? O álbum de Roberto Ribeiro inclui “Não Vai, Não”, composição de Arlindo Cruz em parceria com Luiz Carlos da Vila. Já o disco de estreia de Zeca Pagodinho – um dos grandes marcos do pagode – abre com SPC, parceria dele com Arlindo.
O que significa que a experiência do samba em minha vida – e na vida de muita gente – é integralmente atravessada pela presença do mestre.
Arlindo compunha com maestria e tocava como poucos. Seu timbre possuía algo de encantatório, como quem, ao cantar, incorpora: suave como um amante dedicado, confidente como um amigo íntimo, filosófico como um profeta das ruas. Mas que ninguém se deixe enganar: a fala mansa é de nego véio que, quando se percebe, já foi. Quando Nego Doce se dá conta, tio Arlindo já mandou brasa em todo o açucareiro.
Viver tanto e tão intensamente que a tradição prestará tributos em seu nome. Não se lembrar da última roda de samba que não tocou, ao menos, um de seus sambas. Arlindo Domingos Cruz, o sambista perfeito.
1. MEU LUGAR
Samba é mais que um gênero: é sobre estar em casa. Dai que muitos deles cantam seus territórios de pertencimento como forma de dotá-los de afetividade e substância.
Habitar não é sobre ter a propriedade das coisas, mas sobre o orgulho de ser o que se é. Com Meu Lugar, Arlindo fez de Madureira um lugar afetivo para todo brasileiro.
2. SPC
O processo de separação como processo de endividamento: nada mais proletário do que isso.
Um samba de (des)amor cujo campo semântico é inteiramente tomado pelas preocupações econômicas do dia a dia: salário, pagamento, crediário, numerário. Amor é dinheiro, desamor é nome sujo. SPC é uma verdadeira aula de como dotar de materialidade (suburbana) os conteúdos do coração.
Uma coisa é certa: nenhum playboy conseguiria chegar em uma síntese dessas de forma tão sacaz e competente.
3. DEIXA CLAREAR
Lições de arte negra, evangelho de seu Arlindo: pra malandro tudo é flow.
Em DEIXA CLAREAR, a canetada de Arlindo é estrategicamente armada pra fazer o flow embassadíssimo de Zeca brilhar. Malandro monta e desmonta a melodia envenenada como se fosse a coisa mais simples do mundo. Linhagem nobre de samba sincopado, pique Ciro Monteiro e Geraldo Pereira. Segura essa marimba que eu quero ver.
4. SAMBA DE ARERÊ
Dotado de um nivel de percepção apuradíssimo, não é incomum que as composições de Arlindo se tornem as mais emblemáticas do repertório de diversos artistas. É o que acontece com as parcerias de Arlindo com Xandy, que nas mãos da batucada pesadíssima do Revelação viram ouro.
SAMBA DE ARERÊ tem gravações icônicas de Beth Carvalho e Leci Brandão, mas eu acho simplesmente genial esse medley com o gangsta funk de Mr. Catra.
Lição do mestre: PROCEDER é ponto de interssecção entre samba, funk e rap.
5. ESTRELA DA PAZ
A eterna disputa: é samba ou é pagode? Vejamos: quem dentre vós dirá que mestre Arlindo Cruz não é um sambista de fato? Não obstante, praticamente todo mundo do pagode 90 gravou composições do mestre: Soweto, Katinguelê, Negritude Jr., Sensação, Exaltasamba…
ESTRELA DA PAZ, composição de Arlindo, é samba roots puro sangue ou mera diluição comercial? O samba se vendeu ou, como diria o poeta, quem tem raiz é mandioca? Nenhum, nenhumas: o samba é afluente.
6. SEJA SAMBISTA TAMBÉM
De todas as formas de beleza, talvez a mais sublime: Chorar copiosamente diante do Belo, apenas porque ele é. Eis a forja que imprimiu nos homens a necessidade de seus Deuses.
A melodia desse samba é um dos pontos altos da discografia do Fundo de Quintal e, consequentemente, de toda historia do samba. O ciclo perfeito: a letra que traduz o que a melodia injeta dentro da gente, enquanto a batucada inventa em nós um novo corpo. A estética como território.
7. SERÁ QUE É AMOR
Digo, redigo: Nego Doce xangozeiro não descuida do machado. Arlindo é mestre em cantar o amor com uma sensibilidade capaz de machucar o coração até do mais feroz dos malandros.
SERÁ QUE É AMOR é daqueles pagodes que embaralham distinções fáceis e ligeiras: cai bem no canto vadio de Zeca e Jovelina, mas também aporta com gosto na maciez de Péricles e Belo.
Aprender com o mestre: o samba é o samba sendo.
8. E VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE A LUTA
Ao longo de sua vida, Arlindo manteve uma forte ligação com a Império Serrano, sua escola do coração. Ao todo, emplacou 11 sambas na agremiação, incluindo esta preciosidade de 1996, que aborda o combate à fome no Brasil e proporcionou um dos grandes momentos da Verde e Branco de Madureira na Avenida.
9. CASTELO DE CERA
“Enquanto a tinta da falha \ O meu bom nome não manche \ Recolho as suas migalhas \ Pra fazer delas meu lanche \ Mas eu não visto a mortalha \ Enquanto não há revanche”
Pra moçada ciscar no tapete, a fina flor da escola de tio Almir. A arte de dizer não dizendo, pois recado dado não se olha os dentes. Naquele modelo, pique Bebeto Loteria – quiça, pior, pois naquele dia até quem não era acabou indo.
10. O SHOW TEM QUE CONTINUAR
De todas as formas de amor, a paixão pelo próprio samba legou momentos memoráveis na canetada do mestre. O SHOW TEM QUE CONTINUAR, parceria com Sombrinha e o grande Luís Carlos da Vila, vai além: mais do que uma declaração de amor à música, reconhece nela a centelha de vida de onde o amor pode renascer.
De folhas mortas e metais em surdina, nós iremos achar o tom e fazer com que fique bom – outra vez – o nosso cantar, simplesmente porque o show – essa esperança equilibrista – em continuar, insiste.
:Travessia.