Internet

Dossiê 2024 por seus discos (2/4): MV Bill, Amaro Freitas, Os Garotin de SG, Ilessi, Ayrton Montarroyos

Mvbillnavisaocapa

MV Bill – Na visão do morador (RJ) 

O rap é uma convocação – daí a atenção ao que se diz. Palavra-arma: dignidade enunciativa dos Condenados da Terra. O problema é que nossas vozes estão contaminadas pelo capitalismo autofágico, uma época fundamentalmente mística em que o Capital é a única religião. Daí que muito do que se ouve é meritocracia e narcisismo, em uma estrutura paranoica corroída pela “inveja” (i.e. desemprego) por todos os lados.

A estrutura paranoica do novo rap (o trap no comando) incorpora a forma atual da sociedade degradada. Mcs se comportam como gerentes de um pequeno negócio que, por pagar mal seus funcionários, morrem de medo de uma rebelião. Por isso precisam ficar se justificando o tempo todo: “sou foda mermo, os incomodados que se mordam”. Além de exorcizar os “invejosos”, ou seja, os que não acreditam na farsa meritocrática e que, por isso, estão loucos pra tomar o seu lugar. Com sangue, se preciso.

A performance de autoestima e potência sexual absoluta tentam desesperadamente ocultar o verdadeiro conteúdo do trap: o fantasma do desemprego e da descartabilidade tornados ameaças permanentes no neoliberalismo. A sociedade do descarte e da concorrência absolutas goza com o espetáculo de jovens de 20 anos se entupindo de tadala para não ficarem para trás.

É nesse ponto que a Velha Guarda entra. Para mostrar que a favela só vence quando o proceder tem força e direção. Valor não é sobre dinheiro: Cristo só caminhou sob as águas porque aprendeu a flutuar com os derrotados. Mestre Bill entra em campo aos cinquenta do segundo tempo pra mostrar que o rap segue sendo o braço armado-pedagógico do hip hop. Denúncia, papo reto, visão – jogo jogado. Uma pedrada que em alguns momentos – como em “Traumas” – lembra os clássicos do Gangsta anos 1990. O inimigo é, como sempre, o genocídio, mas dessa vez o papo é dado também pra quem tá na cena: afinal, rap sem hip hop não é rap, é hype.

Amaro freitas y y

Amaro Freitas – Ye Ye (PE) 

Quando as matriarcas Sateré-Mawé ralam o guaraná na água, transformam o elemento físico em essência espiritual. SAKPÓ – mensageiro do tempo que conduz o espírito à Terra sem Males. SAKPÓ – manifestação viva do próprio tempo a realizar seu caminho de cura ao conectar o espírito à natureza, a mente ao corpo, o eu ao universo.

O piano de Amaro Freitas persegue apaixonadamente o segredo sateré-mawé da transmutação do elemento físico em espiritual. A conjuração da verdade espiritual do piano – sua essência-tambor – é caminho de revelação enquanto sonho e delírio. Mais que um disco, Y’Y é um modelo de onirismo especulativo.

O que nos dizem os sons em estado de delírio?

Davi Kopenawa: “Gostaria que os brancos parassem de pensar que nossa floresta é morta e que ela foi posta lá à toa. Quero fazê-los escutar a voz dos xapiri, que ali brincam sem parar, dançando sobre seus espelhos resplandecentes. Quem sabe assim eles queiram defendê-la conosco?” 

O quanto do negro jazz não é saber afro-indígena?

A pobreza edipiana dos sonhos dos brancos é a forma mesma da nossa recusa à alteridade. O tempo dos sonhos não nos pertence – por isso, desaprendemos a morrer. Contra isso, Amaro transforma seu piano em um acelerador de partículas, tambor xamânico a amplificar as vozes dos xapiris. Ontogênese Sateré-Mawé – o tempo e sua matéria.

Em Y’Y, o piano preparado, regressando à sua condição percussiva elementar, é convidado a dançar a sinfonia das águas: Floresta – Rio – Capibaribe. O resultado é o oposto da domesticação pacificadora da world music – forma perversa de fetichismo neocolonial com fins extrativistas. Jazz contra colonial afro-indígena. O piano antes do Brasil. 

Amaro fruto vosso ventre:- John Cage, seu cavalo.

Garotin1

OS GAROTIN DE SÃO GONÇALO (RJ) 

Baile Black é sobre muita coisa: curtição, orgulho, cuidado. Atenção ao corpo flutuando no espaço. Consciência do SER que dança enquanto negro. Senso de comunidade que reorganiza o próprio tempo. Marcas no corpo, swing no soul. Balanço que desperta os sentidos ao sensualizar – i.e., encantar – o território. Letras que evocam orgulhos quilombolas. Cuidadosa articulação da pluralidade polirrítmica de vozes. Música que se habita.

As vozes em estado de baile são o grande trunfo dos Garotin. Não só as humanas: no seu som, como em Earth, Wind and Fire, tudo é voz. Caixa, bumbo, baixo, metais. Tudo é voz. Tudo é negro. E carioca. Daí o rigor na seleção dos convidados: Tim & Sandra & Cassiano & Black Rio. A tradição dos bailes blacks, mais contemporânea do que nunca. Espectros ancestrais, sabenças do baixo ventre: Quem não tem swing morre com a boca cheia de formiga.

So Lay down the boogie and play that funky music ‘til you die.

A3626377067 16

Ilessi – Atlântico Negro (RJ)

Atlântico Negro é onde? Na voz. Ou melhor nas vozes. E são muitas as presenças da Voz na voz de Ilessi. As belas parcerias de Milton com Elis, os Tincoães de Mateus Aleluia, os cantares do tempo além do tempo de Tia Clementina. São todas dentro dela, excepcionalmente vivas também nas vozes do piano particularmente baiano de Marcelo Halter. Piano preto, que canta, batuca e chora. Mas Atlântico Negro é também um outro: tudo o que é sólido e que se desmancha no ar. O modo de ser pelo improviso, como bem lembrou o parceiro Túlio Vilaça. Forma de ser negro em um mundo em que brancas são as máscaras.

O negro como condição improvisada de ser, identidade posta sob o signo da precariedade, capaz de fazer-se voz a partir de um não lugar; mundo fora do mundo; lugar fora das ideias. É dessa forma de ser em devir que a matéria emerge, subvertida enquanto potência. Música não se toca. Música se incorpora. A ancestralidade de câmara e o jazz de terreiro apontam para o futuro da MPB, se MPB (e futuro) ainda houvesse. 

Lembro aqui o Bernardo Oliveira: se nosso livro de cabeceira fosse Casa Grande & Palmares, quem teria as manhas de inventar esse Brasil? 

Ab67616d0000b273238c9ce919af0949084126c3

Ayrton Montarroyos: A lira do povo (PE) 

Lira do Povo”, de Ayrton Montarroyos, é um disco ambicioso, de grande complexidade conceitual e acuidade estética. Lindo de doer, densamente simbólico, com repertório e arranjos em forma de suíte popular que evitam, a todo instante, abraçar o óbvio. Sim, a parada é séria.

Desde o título — que remete a antigos projetos dos CPC da UNE —, a ambientação do disco evoca tempos pré-tropicalistas de sonhos mais à esquerda. Seu contexto, contudo, é outro: antigos ideais de emancipação popular foram vendidos a preço baixo ou realizados pelo avesso. As formas presentes no disco assumem, assim, os contornos de uma fantasia melancólica: de ideal revolucionário, o imaginário político da classe média progressista se converte em mitologia.

Trata-se de um álbum conceitual cujo fio condutor é a busca por aquilo que costumávamos chamar, bem ou mal, de MPB. Mais especificamente, por aquela vertente da MPB que tinha um encontro marcado com a “alma do povo” – encontro esse que nunca chegou a acontecer.

(Até hoje a disputa é grande para saber quem chegou atrasado no rolê: foi a revolução que traiu o povo ou o povo que traiu a revolução?)

Daí que na “Lira do Povo” esse impulso modernista apareça como que “virado pelo avesso”. Ao fim de sua jornada, o encontro não se dá com o “povo”, mas com as ruínas da tradição que apostou nessa possibilidade. Nada de caminhar e cantar e seguir a canção, portanto: é bem possível que ela nos leve a lugar nenhum, ou a lugar pior.

Em seu cultivo paciente e rigoroso da beleza, a partir da invenção de um ontem que nunca houve, a Lira do Povo exige de nós a disciplina de corpos dispostos à escuta atenta — como só um mundo pré-smartphones seria capaz de comportar. Não fosse por outro motivo, o disco mereceria ser saudado por isso: exigir de tempos sem substância um compromisso ético radical com a Beleza.

O resultado é um trabalho forjado em um acúmulo de “impossíveis”: esquerda revolucionária, emancipação popular, democracia radical. Ou seja, MPB. Daí sua forma espectral, como um retorno à matéria em cujo cerne repousa a consciência da eternidade e do infinito.

Sim, vivemos tempos de decomposição subversiva das formas de ser. Mas as ruínas não deixam de promover suas próprias formas de aprendizado e beleza.

IMG 20191209 150955739
Acauam

Share this post

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *