
De quando um ressentido faz uma crítica ressentida ao ressentimento Incel.
Podemos dizer que “Coringa – delírio a dois” sofre da mesmíssima crise de consciência que nosso bom e velho Capitão Nascimento em “Tropa de Elite 2”. Tanto José Padilha quanto Todd Phillips, inconformados com o fato de suas criações terem sido apropriadas como símbolos pela extrema direita mundial, decidiram erradicar o “monstro” na raiz – e, de quebra, dar uma “lição de moral” em sua fanbase ultraconservadora.
Lembro, inclusive, de um Reinaldo Azevedo (à época, um crítico feroz do PT) indignadíssimo, lamentando que Capitão Nascimento tinha feito um curso de sociologia na USP e já estava pronto para se tornar militante do PSOL (digam o que quiserem da nossa velhinha de Taubaté, mas o bicho consegue ser engraçado).
No entanto, ao contrário do que afirma Uncle Rei, Tropa de Elite 2 realiza sua autocrítica sem abandonar a perspectiva conservadora — e é justamente aí que reside sua força. O que ele faz é reposicionar a imagem do Capitão Nascimento, que de Bolsonaro passa a representar Sérgio Moro e a Lava Jato. Sua genialidade consiste no fato de que nem Bolsonaro nem Moro eram, à época, as figuras decisivas que se tornariam tempos depois. Os filmes conseguem “prever” essas personalidades a partir do reconhecimento estético de sua necessidade histórica, justamente por assumir uma perspectiva reacionária que em breve se tornaria hegemônica.
Quanto ao Coringa, o diretor opta por um exercício de sadismo narcisista, com viés conservador, empenhado em arruinar passo a passo a experiência do jovem incel que se identificou com a personagem. Imaginem só: forçar jovens onanistas, fãs de Marvel e Velozes e Furiosos, a assistir a um musical de duas horas, no qual seu herói é destruído e humilhado das mais diversas formas, além de manipulado por mulheres. Cada número musical é uma facada no orgulho hétero ressentido que sustentou o sucesso do filme anterior.
O desejo de confrontar a cultura red pill organiza a própria estrutura do filme. Além da forma musical e da completa “desvirilização” de Arthur Fleck, a obra inverte seu eixo narrativo ao entregar o controle à personagem de Lady Gaga — que, além de ser mulher, é ícone da comunidade LGBTQIA+, uma dupla afronta à cultura incel. Arlequina é a representação direta do público que se identificou com o primeiro filme: uma patricinha mimada que projeta todo seu vazio e frustração na fantasia de Coringa.
A princípio, frustrar a comunidade incel parece algo bem divertido de se fazer, além de corajoso, dado a certeza de queda dos lucros e fracasso quase certo nas bilheteiras. O problema é que, ao contrário de Tropa II, o Coringa de Todd Phillips entrega pouca coisa além de sua própria frustração, o que transforma o filme em um exercício vazio, tão ressentido (e violento) quanto o universo masculinista que pretende criticar.
Em seu desejo de destruir e eliminar o legado do filme anterior, o filme acaba incorporando os mesmos impulsos de ódio e destruição que constituem a fantasia de ressentimento encarnada pelo Coringa. Afinal, o que poderia ser mais Coringa (i.e., protofascista) do que rasgar, tacar fogo e defecar sobre o próprio legado, apenas por diversão e ressentimento?
Em sua ânsia por renegar o filme anterior, Coringa II acaba por descartar muito apressadamente seus acertos – em particular, o diagnóstico político. Basicamente, o novo filme apoia-se em duas teses principais: 1. O Coringa é uma projeção de destruição incel alimentada pela indústria cultural e pela lógica neoliberal e 2. se Arthur tivesse recebido mais amor na infância, não teria se tornado um fascista. Ou seja, a despeito de seu tom niilista-depressivo, o filme quer nos consolar, tratando Coringa como mero desvio patológico de mentes perturbadas.
Ora, não me parece que Pablo Marçal se tornou quem é por falta de abraços na infância. O coach fascista adota essa postura porque é assim que o jogo é jogado — e ele joga para vencer. Ou seja, aquilo que o filme trata como desvio ou patologia, a fim de marcar seu distanciamento, é, na verdade, o modo de desenvolvimento normal do capitalismo. Tanto é que o próprio filme incorpora —involuntariamente — algo dessa mesma lógica, ao fazer do ressentimento o fio condutor de uma narrativa que só se sustenta a partir da negação obsessiva do filme anterior.
Deve ser realmente angustiante para um diretor fazer um filme “crítico” e perceber que o público fascista se identificou completamente com ele. Contudo, muito pior deve ser a sensação de saber (ainda que inconscientemente) que essa identificação não resultou de um equívoco de interpretação, mas porque a leitura fascista do filme está, no limite, correta. Afinal, desde o princípio, seu ponto de vista reforçava aquilo que pretendia criticar.
Atropelado pelo ego ferido de seu diretor, o roteiro de Coringa II perde também em coerência e desenvolvimento. Note-se a incoerência de uma personagem como Arthur Fleck abdicar daquilo que o empodera e confere algum sentido – ainda que perverso – à sua vida miserável. É como se Michael Corleone, do nada, resolvesse que seria melhor se entregar a polícia em vez de seguir nos negócios da família, porque o crime é feio e bobo… É exatamente isso que acontece com Arthur ao optar por retornar à sua condição anterior, simplesmente por estar aprisionado por uma direção reacionária que insiste que “perdedores” devem permanecer em seu lugar de insignificância para não fazer m*rda.
No limite, o filme deseja ser uma grande pegadinha com a extrema direita. Mas mesmo nesse ponto ele poderia ter se saído melhor. Não seria muito mais interessante e ousado dobrar a aposta da identificação, fazendo com que as pessoas – inclusive as de esquerda – amassem ainda mais o Coringa, para que, no momento de receber mais um Oscar, Joaquim Phoenix revelasse ao mundo que o roteiro continha trechos inteiros de Mein Kampf, do Hitler? Certamente seria uma estratégia mais desestabilizadora – estilo Borat – do que a reafirmação caricata do próprio conjunto de certezas em uma era marcada pela neutralização cínica dos discursos dissidentes.
O principal problema de Coringa 2 é que seu protagonista não é Arthur Fleck, nem tampouco Lady Gaga, mas o próprio ego ferido do diretor. “Coringa é um incel! Me solta que eu PRECISO mostrar pro mundo o quanto desprezo essa GENTALHA”. Estética e politicamente, contudo, não seria muitíssimo mais interessante explorar a complexidade psicológica e social de um bem-sucedido fascista – fenômeno ético que tem definido o mundo contemporâneo? Ao menos, seria mais interessante do que conhecer a opinião pessoal do diretor, a qual poderia ser reduzida a uma postagem nas redes sociais, ao invés de se arrastar em um musical de mais de duas horas.
Infelizmente, Coringa II opta por fugir de sua questão mais importante, provavelmente por medo de estar incluído na resposta: o que torna o fascismo fascinante? Afirmar que a culpa é da ignorância e da manipulação da mídia é apenas mais um indicativo de que as categorias tradicionais de compreensão da realidade foram neutralizadas em um contexto em que até o fim do mundo aparece como algo tedioso e sem graça. O Coringa é uma personagem que faz sentido porque ele é verdadeiro: afinal, o niilismo fundamentalista se tornou, de fato, o afeto predominante em nosso tecido social. No limite, o palhaço anárquico destrutivo existe para trazer ao menos um mínimo de emoção sádica ao nosso inevitável processo de extinção. O gozo no Caos.
Enquanto isso, um Todd Phillips ressentido e acuado nos aconselha: se beber, não se revolte. Pois os humilhados da terra, quando se revoltam, só fazem besteira. E o que a gente precisa é manter as quatro linhas da constituição. Com Xandão e com tudo.
No mais, Coringa segue sendo uma personagem muito maior do que seus eventuais diretores.
Let’s put a smile on that face.